"Você viu Didi, o São Cristóvão está de uniforme novo!"
Esta foi uma frase disparada por Garrincha, ao ver entrando em campo a seleção inglesa na Copa do Mundo no Chile em 1962.
Não acredito que Garrincha ali desdenhava qualquer jogador do escrete inglês.
Acredito sim, que o destino do desdém era a parafernália, o espetáculo, que no fim das contas se resume, sem poesia: a um gramado, pouco mais cuidado do que o destinado ao agronegócio, com onze marmanjos de cada lado, dois grupos, vestidos em cores berrantes, a correr atrás de uma bola costurada em gomos, tentando empurrá-la, preferencialmente com os pés, para dentro de uma armação geométrica chamada 'trave'.
Faltou aí uma coisinha só, talvez duas.
Uma delas é a diversão.
Tal qual uma horda de bárbaros, ao se colocar como um dos dois times, ou quem sabe nem isso, apenas assistindo, simpatizando, ou quem sabe até mesmo torcendo por um destes, o interesse individual é dispersado e surge um único sentimento, compartilhado entre os de mesmo interesse, e de forma proporcional, ridicularizado pelo grupo contrário.
Adversário.
Quem sabe até, inimigo. Antes de tudo, uma brincadeira, claro.
Talvez aí esteja a segunda coisa que falta muito, em vários lugares, a várias pessoas, para separar futebol daquele parágrafo tão frio escrito lá em cima.
Falta diversão.
Falta espírito.
Falta malandragem.
Talvez, falte amadorismo.
Futebol se tornou algo muito profissional, frio.
Garrincha quando soltou essa frase, apenas tentou evocar de volta o espírito da coisa.
Reduzir os espaços.
Diversão.
E malandragem.
O que faz e sempre fez o futebol brasileiro ser diferente de qualquer outro no mundo, sempre foram essas duas palavrinhas, juntas: diversão e malandragem.
Você assiste hoje a qualquer programa esportivo destinado ao futebol, e quando você vê um jogador sendo entrevistado, de preferência no centro de treinamento de sua equipe, logo que ele termina a frase, logo lhe bate um sentimento: "já ouvi isso antes"
Com certeza.
O jogador de futebol hoje tem mais pessoas em sua volta, 'cuidando' de sua carreira, que o filho bebê de qualquer rainha, em qualquer reinado.
Logo, vai-se embora o improviso, o toque malandro, as vezes até a genialidade, seja dentro, ou fora do campo.

Cresci vendo Romário e Edmundo na TV.
Dois jogadores fantásticos.
Mas, mais que as jogadas, o que sempre me fazia querer vê-los, mesmo eu, torcedor de um time que nunca os teve em seu elenco, era a malandragem, a provocação, as frases de efeito, dadas no calor do momento, o penalti intencionalmente dado pra fora para não ferir o time adversário, pois era o time de coração do batedor, que estava no outro apenas como 'profissional'.
Time do coração.
Que os boleiros do século vinte e um ainda tenham um.
E sejam malandros.
“Campeonatinho mixuruco, nem tem segundo turno.”
Garrincha, após a conquista da Copa do Mundo, 1958
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